10 de jun de 2009

CONTO - TIETÊ RIO MACHO

Raimundo Rodrigues

José da Silva, o Velho-Juca-Pescador, como era conhecido por aquelas bandas, chegou à beira do rio, pôs-se de cócoras, bem na beiradinha, como fazia nos seus belos tempos de moço, e esticou os olhos para o outro lado, procurando ver o que estava acontecendo naquelas lonjuras. Espremeu os bogalhos que eles estavam cansados e não iam muito longe mais não. Fazia dias que o Tietê estava brincando de mar. O velho rio tinha água que não acabava mais, despropósito de água. Subira tanto que os ranchos dos ricos que ficavam na margem esquerda, do lado de lá , no barranco mais baixo, estavam na beiradinha d’água. De vez em quando, uma pouca de água mais safada dava uma lambidinha numa parede aqui, uma lambidinha em outra parede ali... Se a enchente continuasse não ia demorar muito e aqueles ranchos todos estariam alagados.
E dizer que a cidade do padre já estava ali perto, foi o doutor médico que disse, por isso é que os ricos fizeram casa na beirada do rio. Eles vinham passear, ficavam um dia, dois e voltavam para a cidade do padre. Pera aí, não vai me dizer que tinha esquecido do nome da cidade do padre. Imagina, Sun Paulo, meu! E o doutor médico dizia que a cidade do padre estava grandona. Vê lá... fazia tempo que não ia lá, a idade tirara as forças das pernas, tinha preguiça de andar. Nos tempos de moço, ia muito à cidade do padre. Era aquela coisica, ali em redor do colégio. Todo mundo dizia que a cidade tinha nascido ali. E cidade nascia? Outros diziam que aquele colégio... Que diacho seria colégio?, é, o povo dizia que ele era o colégio do padre. Não sabia o que era colégio... por isso é que chamava Sun Paulo de cidade do padre.
Velho Juca puxou uma fumaçadinha do paieiro e ficou assuntando que o velho rio, o seu velho rio amigo não era mais o mesmo, não era mais aquele rio macho dos seus tempos de moço. A peixarada sumira. Era isso mesmo, até a peixarada tinha-se mudado. Nos tempos de agora, em pleno verão, o velho rio paria apenas alguns barbados, uns poucos piaus e esse peixe danado de besta, chamado corvina. Em no antigamente, nos velhos bons tempos, o velho rio vivia gordo de tanto peixe. Então ele não alembrava? Estava com 85 eras, mas a cabeça estava boa. Era piapara, traíra, mandi, dourado, caranha, pacu, taguara, cascudo, tudo peixe gostoso, peixarada de briga braba. Dava gosto pescar...
Velho-Juca-Pescador sentia dó, muito dó, de seu velho amigo, de seu velho rio. Há muito tempo que não via ele tão cheio assim. Estava bonito que dava gosto. Descia com força, levando tudo no peito; mal comparando, até parecia garanhão atrás de égua parideira. Agora, do jeito que ele estava, podia chamar de rio macho. Até parece que tinham nascido juntos. Desde que se entendia por gente, vivera sempre ali na beira do velho rio amigo.
O sol estava a pino. Já devia de ser mais de meio-dia. Solão gostoso, quente, mormaçudo, brincando de brilhar nas águas do velho rio. Lá no rancho tinha alguém cantando.
Que diabo de música mais triste. Era o doutor. Ele gostava de tocar violão, de cantar cantiga de antigamente. Vai ver que o doutor estava desabafando as mágoas. Será que o doutor da cidade, o doutor-médico tinha mágoa? Ele era rico; era doutor e era rico, como é que podia ter sobrosso? Chi, homem, larga o doutor pra lá... Mágoa era coisa que só existia em coração de pobre. Coração sofrido. O coração dele sim, era coração magoado, coração mal-sofrido. Coração velho, que já não fazia tum-tum com força.
Sobreolhou as águas do rio com a mão em concha, protegendo os olhos, defendendo-os da luz do sol.
Nossa Senhora! Coitadinho daquele tatu. Onde já se viu querer enfrentar aquele mundaréu de água? Será que o bichinho vai dar conta de chegar no barranco? Quantas e quantas vezes não metera os peitos nágua, nadando até do outro lado. Quando o velho rio estava muito cheio, não... nadava só na beirada. Tietê cheio tem uma força danada. Por isso é que gostava de dizer que o seu velho rio era macho. É... o doutor médico continua cantando...
A voz do doutor continua chegando à beira do rio.
O doutor, desta vez, trouxe um povão com ele... cada mulher bonita, meu. Credo! Foi ele que veio com aquela conversa que a cidade do Padre tinha crescido, estava grandalhona... conversa besta, era velho, mas não era burro. Pois então não conhecia Sun Paulo? É verdade que já tinha umas erazinhas que não ia lá. E o raio do doutor dizia que a cidade do padre já estava pertinho dali, uma legüinha pequena, se muito. E cidade Anda? E cidade sai do lugar? Quá o doutor é, mas é, brincalhão.
O lugar onde estava o velho pescador começou a tremer... a água estava entrando por baixo do barranco, fazendo loca, querendo levar consigo todo aquele pedação de argila.
Velho-Juca-Pescador ainda tentou levantar-se, as pernas não o ajudaram e lá se vai tudo rio a dentro, estrondando o estrondo surdo da terra caída. As águas famintas do velho Tietê comiam mais um naco de barranco.
E as águas gulosas se fecharam e se abriram, se abriram e fecharam e o corpo saiu rio abaixo, subindo e descendo, descendo e subindo.
E o velho rio macho continuou espraiando-se pelas várzeas. Uma garça branca passou voando em busca da outra banda. No meio do rio, um socó-boi viajava em cima de uma moita de capim gordura, um pouquinho pra lá, uma cascavel tocava o chocalho, querendo amedrontar o rio.
A voz do doutor médico continuava no ar...
“Já não te lembras da casinha pequenina,
onde o nosso amor nasceu...”

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